Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



A filha

por MC, em 22.09.16

Tenho uma filha pequenina, matreira e travessa como todas as outras. A minha filha é franzina e frágil, tem o rosto sulcado dos trilhos do tempo e os olhos pequeninos e fundos lançam fulgores de alegria ou contrariedade, na ligeireza em que se gasta um fósforo. A minha menina tem a pele toda enrugada, como se os anos a tivessem amarrotado, ao pousar nela, maciços e descuidados, o seu peso inexorável.

Enche-me de cuidados, esta minha filha. Às vezes, acredito que está sossegada na madorna quente do sofá e quando vou por ela, valhamedeus, não se acha em lado nenhum, o coração dispara-me como uma fisga. Procuro, espavorida, que é dela, que é dela, alvoroço a casa, incomodo a vizinhança, um desassossego. Às vezes, vejo-a por fim assomar ao fundo da rua, confiante e feliz, com um qualquer braçado de flores ou uma mão cheia de amoras. Amua, desconcertada, se lhe ralho por ter saído sem avisar. “Era o que faltava”, resmunga baixinho, com os lábio hirto quase a chegar ao nariz, “a pessoa agora não poder fazer a sua vida… era o que faltava…”, lá vai desfiando queixumes, até se esquecer da birra.

De vez em quando, vou dar com ela parada junto à sebe da escola, a cismar nas brincadeiras dos meninos. Outras vezes, encontro-a sentada num banco do parque, a discursar, desenvolta, para uma qualquer plateia que só ela vê. É sempre surpreendente, a imaginação da meninice. Ocasionalmente, nestes seus giros a despropósito, cai e magoa-se. Encontro-a choramingona, de joelhos esfolados e ombros a tremer. É escusada a zanga, em alturas assim. É dia de mansa repreensão, enquanto se desinfecta o dói-dói.

É caprichosa, esta minha filha. É costume agora torcer o nariz à alface, aos agriões, aos espinafres e aos brócolos. Que não, que lhe fazem mal, dão dores de barriga. Cai-lhe uma tristeza fiteira no olhar, os ombros descaem, os suspiros brotam como lágrimas. Ai, que já nada lhe sabe bem, queixa-se a minha filhinha. Dou com ela a horas impróprias, sentada na cozinha, a comer doçuras. Amiúde encontro a lata dos biscoitos estrategicamente entrincheirada entre as almofadas do sofá e sei, de fonte segura, que o pacote das gomas desaparecido há dias repousa agora, esventrado, na gaveta das meias de uma determinada pessoa.

Às vezes canta, a minha menina. Começa num cantarolar baixinho e frágil como ela própria. Depois, a voz enche-se-lhe de uma força que já teve e materializa-se nela a mulher que foi. E canta com viço e destemor, com o mesmo ímpeto com que outrora lidou de sol a sol, ergueu e escorou uma casa e uma família. Nessas alturas, dá gosto ouvi-la, a minha filha velhinha. Esses são os dias felizes. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:22


2 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 23.09.2016 às 00:53

filha és, mãe serás, nem que seja da tua filha velhinha, que cuidas com desvelo. Que lindo texto, quanta ternura. Bem hajas filha dessa tua mãe que agora é filha pequenina.

beijo daqui até aí
http://noname-metamorphosis.blogspot.pt/
Imagem de perfil

De MC a 23.09.2016 às 21:31


É mesmo assim, Noname. Muito obrigada. Retribuo o beijinho.

Comentar post



Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

foto do autor


Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D